sábado, 12 de fevereiro de 2011

ALMAS DE PLÁSITCO



Quando somos jovens
pensamos que a juventude é para sempre.

Quando estamos saudáveis
pensamos que a saúde é para sempre.

Quando estamos felizes
achamos que a felicidade será para sempre...

Mas não tarda
e logo descobrimos
que somos apenas uma alma de papel
que cedo ou tarde
a chuva do tempo há de molhar...

 
(Será que no paraíso as almas são de plástico?)


*

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Dicionário das Coisas do Céu | NOITE


A noite adormece o céu.
À noite o sol adormece.
À noite o céu escurece.
À noite o silêncio é maior.
À noite o mar é maior.
À noite o calor se abranda.
À noite os corpos descansam.
À noite as nuvens se apagam.
À noite os corpos brilham.
À noite os corpos se amam.
À noite os filhos germinam.
À noite a saudade se inflama.
A noite semeia esperanças.

Se é dia
Procuro a noite
Embaixo da cama.

*



TEMPO, TEM DÓ



O tempo passa passa
e quem fica no passado sou eu

O tempo corre corre
e quem fica cansado sou eu

O tempo vai vai...
vai me levando
esgotando
minguando
acabando com o meu tempo

Eu tento tanto
mas não dá mais tempo...

O que fiz, fiz! Ficou!

O que não fiz, fica o lamento...

domingo, 30 de janeiro de 2011

O Amor dos Loucos | Marta

Marta dorme na praia onde deixou-se cair como âncora
Para sonhar-se Sereia.

Sua cama são os barcos emborcados
Sua casa não tem paredes nem telhados.

Todos os dias Marta acorda morta de amores pelo mar
Acorda com sargaços nos cabelos
E hálito de sal...

E de conversa com o dia ela corre a praia
Vai colecionando ostras e búzios que são suas joias
Seus brincos são anzóis
E redes de pesca, seus lençóis
A espuma das ondas são suas bóias.

Se é noite,
Pondo fogo a remos
Faz fogueiras

Se tem fome
Come o que o vento arrasta

Concreto e asfalto são seus ais.

Marta não quer mais
Pisar o negro chão da cidade
Marta é mulher de idade
De saber o que quer.

Marta quer amar arrastões
Quer namorar navios
Quer marinas e pessoas marítimas
Quer peixes e paixões e naufrágios.

Todo bom dia
Marta dorme e acorda na maresia
Inundada, afogada em sua liberdade.

Quem pode entender Marta
E sua pouca lucidez?

Tão dona de si,
Lá da praia Marta grita:
"loucos são vocês!"
 
 
*

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Poema de chuva para a voz de Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes | Poema | Chuva

A chuva não olha a quem molha
a chuva só cai.
a chuva afronta o sol e vai destrambelhada
cair de cara na cara da gente,
no piso do rosto
no riso
no gosto
no dentes
nos lábios beijando... contente...
molhando o seco, esfriando o quente
e derepente pára, para apenas escorregar
deslizar, escoar
em busca de rios ou mares
de onde subirá aos ares para renascer.
 
 
 
*

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