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sábado, 28 de março de 2020

continuamos sensibilizados com a situação dos moradores de rua

Ao mesmo tempo em que a mulher carrega a criança
Também leva nas costas uma mochila muito cheia
(Suponho que roupas da família)
O pai empurra um carrinho com todo tipo de coisas 
Que encontrou e ganhou na rua durante o dia.
Nas costas, suspenso por uma corda, 
(como se fosse uma grande bolsa)
Leva um botijão de gás.

Essa cena muito me impressionou e comoveu.

"... Perder a ternura, jamais!"





domingo, 22 de janeiro de 2012

Pessoas


"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará porque não sei nada.


Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou porém nem impaciente nem comum.


Deixo ao que são aos que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero".

Fernando Pessoa | Livro do Desassossego

*

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O Labirinto


Hora eu não sou do mundo. Hora o mundo não é meu. Em qualquer das situações me sinto exterior, intruso, desconhecido, estranho, astronauta. Terra perdida sou eu. Terra desconhecida. Terra de céu deserto e deserto mar. Eu durmo e fujo, acordo e caio do sonho de fugir. Acordado começa meu pesadelo: sou invisível, sou perigoso, sou contagioso, asqueroso, seboso, ... a flor do jardim do nojo e o dono das culpas. Todos tomam distância por medo de mim. Sou uma usina de medos. Tenho-os muitos e causo-os ainda mais. Causo tanto medo a muitas pessoas e confesso que mesmo eu temo a mim. Não sei do que sou capaz na hora limite do desassossego. No instante da loucura alheia quando me veem perigoso, sendo eu tão manso, inofensivo e debilitado. 


Me tomam como perigoso mas sou devastado. Me vendem como  ladrão, mas eu que sou roubado dos meus direitos básicos. Na verdade, basicamente, não me dão direito a nada. Apenas me julgam e condenam-me a isso que sou. Apontam armas preconceituosas para mim e disparam sem misericórdia. Sou alvejado constantemente. 


Essa é a vida que tenho: querem que eu seja alguém, mas não me tratam como uma pessoa. Não aceitam a pessoa que sou. Muitos clicariam o botão do meu sumiço. Creio em poucas coisas que me dizem. Ignoro muito do que ouço falar e não sei a quantas anda o mundo lá fora. O meu tempo é pouco, é curto e gasto-o a procura de abrigo e alimento, embora digam que, por ser vagabundo, tenho todo o tempo do mundo. Se durmo sou preguiçoso. Se bebo sou alcóolatra. É raro o dia em que alguém me diz "bom dia...", "boa tarde...", "boa noite...". 


Se peço dinheiro me dizem para procurar emprego, se peço emprego dizem que não sirvo... Vivo em um labirinto, sem fio que me salve e sem Minotauro que me mate. A minha alma, toda ela, já é um calo só. 



Alguns de nós acreditam em Deus, e isso facilita as coisas em um pouco. 

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